Diferenças entre edições de "Fluminense Football Club"

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(Nova página: "A Grande Guerra seria apenas a paisagem, apenas o fundo das nossas botinadas. Enquanto morria um mundo e começava outro, eu só via o Fluminense". (Nelson Rodrigues) "O Fluminense ...)
 
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"'Você é químico?' Não, sou Fluminense, respondi de pronto ao ser abordado por um vizinho que me viu brincando com alguns líquidos de diversas cores. Eu tinha apenas três anos de idade, mas com uma convicção clubística anterior ao meu nascimento, e, quem sabe, anterior ao útero materno". (Nelson Rodrigues Filho)
 
A ÚLTIMA CRÔNICA - Nelson Rodrigues, Filho
Dezembro de 1980. O Velho caminhava para a morte. Uma caminhada suave por conta de uma falência orgânica que começou pelos pulmões, desde os anos 30, e que foi se estendendo a outros órgãos, principalmente ao coração.
Já ficara em coma, em São Paulo, por cerca de 20 dias, em 1974. Os médicos haviam se conformado com a irreversibilidade do processo quando seu cardiologista e amigo Stans Murad resolveu trazê-lo assim mesmo para o Rio de Janeiro, Beneficência Portuguesa. Ocorreu o milagre e, sem mais nem menos, ele abriu os olhos voltando à vida.
Em 1980, a situação havia se agravado de tal forma que se lia nos olhos dos médicos uma contagem regressiva, que, logo em seguida, se mostrou inexorável.
O Velho havia sido proibido de assistir e ouvir os jogos de futebol, pricipalmente os do Fluminense. Não podia se emocionar.
A lucidez total não era uma constante durante o dia, até porque tomava muitos remédios que refletiam diretamente em sua cabeça. Ainda assim, acompanhava tudo o que ocorria no mundo e sabia da partida final do Fluminense contra o Vasco.
Decidi não ir ao jogo para ficar com ele que, com certeza, estaria bsatante excitado e, apesar da proibição, iria procurar um radinho de pilha. Acertei em cheio. Combinamos que, obedecendo ao dr.Murad, eu ouviria o jogo e iria lhe contando como estava indo.
Entre minpusculas sonecas ele dava vazão à sua incrível curiosidade.
"E aí, Nelsinho, como vamos?"
Como sua noção do tempo estava diminuida, resolvi administrar meus comentários. Dizia que a partida estava equilibrada e que o Fluminense vinha bem. Eu andava pela casa emocionado, sabendo que não poderia mentir no caso de uma derrota tricolor. E o medo que isso viesse a ocorrer?
Acabou o primeiro tempo e o 0x0 temperou nossa conversa de intervalo, eu me pautando pela discrição. Recomeçou o jogo com o equilíbrio mantido, mas o Edinho fez o gol do título, de falta. Enxugando as lágrimas, preferi ir dizendo que o Fluminense melhorava para evitar a possibilidade de uma frustração posterior. Não conseguia ficar perto dele, pois choraria as famosas lágrimas de esguicho. Voltei a andar pela casa torcendo com todas as minhas forças, ainda que super contido, para o jogo terminar. Acabou. O Fluminense era campeão. Faltava dizer ao Velho e, fundamentalmente, como dizê-lo. Aos poucos, fui criando o clima que me parecia correto para a grande notícia. Finalmente cheguei ao gol e ainda demorei um pouco para que a partida “terminasse”.
Sua euforia contrastava visceralmente com suas forças. Ainda que proibido de trabalhar, escrever, puxar pela cabeça, insistiu em ir à máquina. Uma luz incontrolável o arremetia para a crônica.
Como costumava fazer, interpretava alguns momentos. Porém, a dificuldade era enorme. Fui ver o que escrevia e ele, simplesmente, errava as linhas do teclado. Não saía uma palavra inteligível.
A um tempo triste, era um espetáculo maravilhoso assistir àquele esforço hercúleo.
“Não posso deixar de escrever”, repetia.
Então combinamos que eu ia para a máquina catar meus milhos e ele ia ditando. Ainda assim, foi extremamente difícil sair uma crônica. Sua cabeça não lhe correspondia. Precisávamos tentar várias palavras para dar nexo às frases.
Custou, mas saiu. Sua última crônica, lutando contra gigantescas forças de seus remédios, veio à tona. Com certeza está longe de ter sido a melhor. As grandes metáforas, as frases retumbantes não puderam aflorar. No entanto, seu último momento como cronista esportivo ficou marcado, mais do que sempre, pela férrea determinação que norteou uma vida em que a morte foi sua vizinha constante. Aquela força, aquela luz só tinha uma explicação: a paixão lancinante pelo seu Fluminense.
FLUMINENSE CAMPEÃO DEMAIS - Nelson Rodrigues
Amigos, em futebol, nunca houve uma vitória improvisada. Tem sido assim através dos tempos.
Foi uma doce e santa vitória. Vocês viram como aconteceu o nosso triunfo. Foi uma tarde maravilhosa.
Tudo começou há seis mil anos atrás. Vocês compreenderam? Podia ser o Flamengo, o Botafogo, o Vasco ou outro, mas estava escrito que a arrancada era tricolor.
Há quarenta anos antes do nada, Nelsinho foi chamado. E foi tão fulminante sua presença no túnel tricolor que merecia ser carregado com uma maçã na boca.
Amigos, os idiotas da objetividade custaram a perceber a evidência ululante, segundo a qual seríamos campeões. Eu lhes falei do Roberto Arruda. Pois o Arruda desde o primeiro jogo do campeonato me procurou dizendo: - “Seremos Campeões”. E neste domingo o Arruda telefonou para dizer uma única e escassa frase: - “Ninguém nos tira a vitória”.
E desde o primeiro momento do jogo, ficou claro que a vitória era tricolor. Foi 1x0 mas poderia ser dois ou três. O Edinho fez o gol e o Fluminense em vez de recuar para garantir o resultado partiu pra cima do Vasco como um leão faminto de mais gols.
E vocês viram: nosso adversário não pôde esboçar a menor reação.
Gostaria de falar dos campeões. O Fluminense tem um elenco fabuloso do goleiro ao ponta-esquerda, e só os lorpas e pascácios não vêem que o futebol brasileiro está encarnado nos craques tricolores.
 
O Globo, 2/12/1980
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