Érico Veríssimo

Escritor brasileiro
Érico Veríssimo
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Erico Lopes Veríssimo (Cruz Alta, 17 de dezembro de 1905Rio Grande do Sul, 28 de novembro de 1975), foi um dos escritores mais populares do Brasil.


RomancesEditar

ClarissaEditar

  • " - Clarissa!
Clarissa perfila-se, conserta o vestido e responde:
- Que é, titia?
- Vem pra dentro, menina. Está na hora do colégio.
O rosto da criaturinha ensombrece. O colégio... Livros, mapas, Ouviram do Ipiranga as margens plácidas... classes, cabeças curvadas sobre cadernos, cochichos, murmúrios e uma vontade doida de sair para o sol, de correr, ver a rua, as pessoas, as casas, o céu, os bondes, os automóveis..."
- Editora Companhia das Letras, 2005, p. 12
  • "O velho Nico Pombo, major reformado, o hóspede mais antigo da pensão. Não tem o que fazer durante o dia, mas costuma madrugar para o chimarrão.
No quarto do judeu já há rumores. Uma voz grossa vem do banheiro:
Deixa esta mulher chorar,
Pra pagar o que me fez...
O Nestor. Sempre cantando, sempre alegre. Clarissa gosta das pessoas alegres. Nem todos na pensão têm cara alegre. O mais triste é Amaro: tem um ar de sofredor, olhos que sempre estão olhando para parte nenhuma. E, depois, aquela mania de viver em cima do piano, batendo à toa nas teclas, inventando músicas que ninguém compreende... Enfim, como toda a gente diz que ele é um homem muito inteligente, é melhor não discutir...
Sorrindo, Clarissa entra no quarto."
- Editora Companhia das Letras, 2005, p. 13

Olhai os lírios do campoEditar

  • Dedicatória:
"Maurício,
Quero que o teu nome fique inscrito também no pórtico deste livro, que viste amadurecer e que enriqueceste com mais de uma sugestão preciosa.Ele ficará como um marco significativo em nossas vidas- o símbolo de uma funda amizade, a recordação dos sonhos de solidariedade humana que sonhamos juntos."
- Editora Companhia das Letras, 2005
  • "O médico sai do quarto n.° 122. A enfermeira vem ao seu encontro.
- Irmã Isolda - diz ele em voz baixa - avise o Dr. Eugênio. É um caso perdido, questão de horas, talvez de minutos. E ele sabe que vai morrer..."
- Editora Globo, 1962, p. 9
  • "Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente."
- Editora Globo, 1962, p. 230
  • "Olha as estrelas. Enquanto elas brilharem haverá esperança na vida."
- Editora Globo, 1974, p. 94

Incidente em AntaresEditar

  • "Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da paleontologia, era uma espécie de tatu gigante dotado duma carapaça inteiriça e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidável rabo à feição de tacapa riçado de espigões pontiagudos."
- Editora Globo, 1971
  • “A esta altura da presente narrativa é natural que o leitor esteja inclinado a perguntar se não existiam em Antares homens de bem e de paz, comportamento e sentimentos cristãos. A pergunte é pertinente e a resposta, sem a menor dúvida, afirmativa. Havia sim, e muitos. Desgraçadamente seus ditos, feitos e gestos não foram recolhidos pela História oficial. Apenas uns poucos deles incorporaram-se à oral da cidade e do município: os restantes perderam-se para sempre no olvido."
- Editora Globo, 1971
  • "Os livros escolares, cujo objetivo é ensinar-nos a história da nossa terra e do nosso povo, são em geral escritos num espírito maniqueísta, seguindo as clássicas antíteses –os bons e os maus, os heróis e os covardes, os santos e os bandidos."
- Editora Globo, 1971
  • "Via de regra, não se empregam nesses compêndios as cores intermediárias, pois os seus autores parecem desconhecer a virtude dos matizes e o truísmo de que a História não pode ser escrita apenas em preto e branco.”
- Editora Globo, 1971
  • “— Será que um dia não vai haver mais em toda a Terra um lugar em que um homem possa ser dono pelo menos do seu nariz, dizer o que pensa, ter uma cota razoável de liberdade? Talvez em alguma ilha deserta do Pacífico...
— Não te iludas. Nem numa ilha deserta poderemos fugir à História. Um dia quando estiveres estendido na areia, nu e comendo a tua banana gratuita, um país qualquer que está querendo entrar para a “família nuclear”, testará a bomba atômica e te levará pelos ares em pedaços...”
- Editora Globo, 1971
  • “— Sei que a senhora gosta de ler — digo.
— Muito. Não se ria se eu disser que o romance mais bonito que li em toda a minha vida foi a Joana Eira de Carlota Bronte. Conhece? Uma jóia. Acho que li esse livro umas vinte vezes. Devorei também todo o Walter Scott e o Alexandre Dumas. Nunca suportei o Zola nem o Flaubert. Mas gostava do Tolstói. Ah! Leio também os modernos. Estrangeiros e nacionais, naturalmente.
— Já leu Jorge Amado?
— Por alto. É bandalho e comunista.
— E o nosso Erico Verissimo?
— Nosso? Pode ser seu, meu não é. Li um romance dele que fala a respeito do Rio Grande de antigamente. O Zózimo, meu falecido marido, costumava dizer que por esse livro se via que o autor não conhece direito a vida campeira, é “bicho da cidade”. Há uns anos o Veríssimo andou por aqui, a convite dos estudantes, e fez uma conferência no teatro. Fui, porque o Zózimo, insistiu. Não gostei, mas podia ter sido pior. Quem vê a cara séria desse homem não é capaz de imaginar as sujeiras e despautérios que ele bota nos livros dele.
— A senhora diria que ele também é comunista?
D. Quitéria que mastigava uma broinha de milho — e mais que nunca parecia um pequinês —, ficou pensativa por um instante.
— O Prof. Libindo costuma dizer que, em matéria de política, o Erico Verissimo é um inocente útil.”
- Editora Globo, 1971
  • "E eu acho, meu caro, que cada um de nós tem nas suas mais remotas cavernas interiores um troglodita adormecido que, submetido a um certo tipo de estímulo, vem rapidamente à tona de nosso ser e se transforma num déspota totalitário capaz de todas as bestialidades."
- Editora Globo, 1971, p. 145
  • "Acho que o homem é um animal agressivo, não há dúvida, mas a diferença entre ele e o lobo é que a criatura humana pensa, é ao mesmo sujeito e objeto, tem a capacidade de ver o seu lado negativo e deplorá-lo. Não ignora que tem um futuro. Tem também a consciência de sua finitude. É - salvo as aberrações - capaz de compaixão, de contrição e de amor. E a crise do mundo moderno não será principalmente a falta de amor?"
- Editora Globo, 1971, p. 187
  • "O fio que prende a sua fé deve ser do melhor aço e portanto resistente e ao mesmo tempo flexível. Fé sem flexibilidade, fé sem dúvida pode acabar em fanatismo."
- Editora Globo, 1971, p. 188
  • "Ora, menino, um ser humano não é uma moeda apenas, com verso e reverso. É um poliedro, com milhares de faces. E há milhares de maneiras de ver uma pessoa, um ato, um fato."
- Editora Globo, 1971, p. 247
  • "Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justiça social."
- Editora Globo, 1971

Um lugar ao solEditar

  • "Quem está com fome fica surdo até mesmo à voz de Deus."
- Livraria do Globo, 1940, p. 213

Outras citaçõesEditar

  • "Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto."
- "Solo de clarineta: memórias" - v. 1, página 45, de Erico Veríssimo - Editora Globo, 1973
  • "Nenhum escritor pode criar do nada. Mesmo quando ele não sabe, está usando experiências vividas, lidas ou ouvidas, e até mesmo pressentidas por uma espécie de sexto sentido".
- Erico Veríssimo, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, junho de 1970
  • "Sei que não sou, nunca fui um writer's writer, um escritor para escritores. Não sou inovador, não trouxe nenhuma contribuição original para a arte do romance. Tenho dito, escrito repetidamente que me considero, antes de mais nada, um contador de histórias."
- "Ficção completa" - Página 163, de Erico Veríssimo - Publicado por Aguilar, 1967
  • "Todos nós somos um mistério para os outros... e para nós mesmos."
- citado por "Dicionário de pensamentos da língua portuguêsa" - Página 215, de Pandiá Pându - Publicado por Edições de Ouro, 1962 - 248 páginas